No âmbito do cinema interativo, procuramos encontrar caminhos viáveis e experiências narrativas que possam ser apresentadas enquanto mais-valias na evolução da linguagem audiovisual. Neste primeiro filme, “Neblina”, pretende-se, através da repetição exaustiva de planos ao longo da narrativa, alcançar diferentes patamares de interpretação fílmica, onde a identificação do espetador com a personagem principal se ambiciona completa, ao ponto de se poderem tornar a mesma entidade.
Através da imersão na narrativa interativa, espera-se um efeito de espelho onde o espetador projeta a sua própria identidade no protagonista da ação, tornando-se um espetador-protagonista. Apesar de a narrativa ser pré-definida (porquanto a sua estrutura não pode ser alterada), a forma como é vivenciada depende diretamente das escolhas do espetador-protagonista. Por sua vez, a repetição de planos procura interferir com a percepção temporal do espetador-protagonista. A repetição de planos poderá, à partida, provocar três tipos de leitura ou reação:
- o esvaziamento do sentido da imagem, pela perda da sedução suscitada pelo primeiro olhar;
- a valorização da imagem, pela descoberta de pormenores que, embora possam não ter sido percebidos nos primeiros visionamentos, poderão ser valorizados pelo desenrolar da narrativa;
- por último, poderá acrescentar pormenores que não existiriam nos primeiros visionamentos, através da manipulação de imagem.
Esta última hipótese joga com a memória do espetador que será posta à prova pela impossibilidade de confirmação da existência anterior de pormenores acrescentados nas repetições das imagens. A repetição de planos funcionará até à terceira geração, ou seja, somente os últimos três planos serão sujeitos a repetição. Neste sentido, à medida que surgem novos planos, aqueles que já foram repetidos três vezes deixarão de ser exibidos, conforme demonstraremos mais à frente. Tendo em conta a necessidade de um elevado grau de imersão na narrativa, é utilizada a voz off enquanto recurso morfológico. Esta, além de entrar em discurso direto com o espetador-protagonista, dando-lhe conselhos, dicas e opiniões, funciona também como “narrador polaco” ao dobrar as deixas de todas as personagens. A expressão “narrador-polaco” é oriunda do tradicional método de tradução de filmes estrageiros na Polónia (e noutros países do Leste Europeu como a Rússia), onde a figura de um narrador dobra tanto a voz off, como os diálogos de todas as personagens da narrativa.









