
Estamos a viver num tempo que corrobora as palavras de Santo Agostinho – “Apesar do homem se inquietar em vão ele caminha na imagem”. Caminhamos nas imagens diárias e naquela que se projeta no ecrã: o grande espelho contem-porâneo. Bruno Silva utiliza o cinema e a banda desenhada como paradigmas da nossa sociedade atual para tentar compreender o tempo em que vivemos. E é do tempo mesmo que trata o seu livro. A contemporaneidade eliminou ou absorveu os corolários básicos de uma Modernidade iluminista que caminhava com pas- sos firmes para um progresso inexorável. Perdidas as utopias, que poderiam se localizar num futuro brilhante ou num passado bucólico, o homem caminha hoje num tempo esquizofrênico, como disse Fredric Jameson, onde passado, presente e futuro se confundem.
Várias épocas juntas numa só: o homem pós-moderno decreta o fim da História e é, por isso, condenado a viver no presente perpétuo. As ficções das décadas de 40 e 50 projetavam um futuro terrível, dominado pela Grande Ordem, à qual todos estariam submetidos, ou mesmo uma volta à sociedade pré- tecnológica (uma utopia passadista), onde o homem reencontraria sua essência. A Máquina Encravada projeta um futuro com a nostalgia do passado. Nostalgia que é, para a sociedade contemporânea, uma espécie de substituto da utopia. Mais do que nunca, estamos vivendo tão intensamente o presente, que esta experiência é quase alucinógena, não existe a necessidade de se projetar um futuro, porque o Eterno Presente, mesclado de recordações do passado presen- tificadas, ocupa todos os nossos sentidos. Para construir o seu universo, o filme e a BD que são aqui analisados, buscam na imagerie do próprio cinema, e da arte em geral, todos os elementos necessários para a sua composição. E o grande sentimento que paira sobre o filme e a BD é a nostalgia. Nostalgia de outra era, onde existiam homens de verdade, capazes de sentimentos reais e que possu- íam alguma substância por trás das máscaras. Agora é o tempo da iconolatria. Destruir as imagens é uma tarefa perigosa. Se o original se vai perdendo, o que pode restar? Para Baudrillard, o medo contemporâneo é o de que não mais exista nada por trás da imagem, que tudo se tenha covertido em mero simulacro. Cada vez mais a angústia do vazio absoluto se instaura, e o Homem, perdendo seus referenciais, seu contato pleno com a realidade, acaba por se perder dentro de seus próprios labirintos.
Omar Calabrese acredita que “onde quer que ressurja o espírito da perda de si, da argúcia, da agudeza, aí reencontramos pontualmente labirintos”. Os pen- sadores da Pós-Modernidade sustentam que a época em que estamos deixou o Homem numa grande encruzilhada, ele está cada dia mais preso ao tédio radical. Parece que, de tanto consumir imagens, elas se foram gastando e já não existe a possibilidade de se criar novas imagens. Instaura-se uma política completamente ecológica; recicla-se todo o inventário imagético, e, a partir daí, surge a nova arte.
Computadores… Máquinas que aos poucos substituem o Homem. Este é o grande terror do demiurgo – criou seu duplo e este pode, facilmente, tomar seu lugar. Estamos a viver uma aporia que dificilmente será resolvida: a razão veio para suplantar o misticismo, para criar um universo totalmente controlado pelo Homem. Mas a razão já não resolve tudo. Ficou um imenso vazio em seu lugar, um lugar que ela tentou preencher com a utopia de um grande futuro, em que o Homem, evoluído e científico, conseguiria resolver tudo. O Homem tentou tanto se superar que a idéia de superação foi ultrapassada. E o que fica no lugar das respostas são mais perguntas e um tédio profundo. Não mais utopia, mas nostalgia de um tempo que ainda acreditava em utopias.
Assim, através das ideias de uma era marcada pelo vazio, pelo fim da História e das Utopias, pelo tempo que se eterniza por já não sair do lugar, Bruno Silva percorre dois textos que têm como tema todas estas questões. O autor amplia a sua análise para além dos textos ao tentar, através deles, perceber um pouco mais de uma era que não tem sequer um nome que a defina: neo-barroca, new- retrô, Pós-Modernidade, modernidade líquida ou hipermodernidade. Estamos num momento impreciso, em que mesmo as definições são incertas. Este livro tenta, de alguma maneira, encontrar respostas. Ou, pelo menos, propor-nos mais algumas perguntas.